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terça-feira, 25 de abril de 2017

E VIVA A SABEDORIA!

Numa rua qualquer de Túnis, capital da Tunísia, no norte da África, um rico comerciante húngaro vê um mouro anunciando a venda de uma belíssima mulher de origem espanhola. Bela e jovem. E a compra, e a leva para casa, feliz.
A jovem e bela escrava adquirida pelo comerciante húngaro tem por nome Teodora.
Teodora é a donzela Teodora das muitas histórias fabulosas que habitam o imaginário popular do mundo todo.
A história da donzela Teodora chegou ao Brasil no século 17, por autorização da real coroa portuguesa.
Teodora é por seu amo mandada estudar com os mais brilhantes professores de sua época e torna-se inteligentíssima, conhecedora de tudo e um pouco mais, da vida cotidiana e de todas as vidas, de todos os tempos.
Um dia o seu amo perde tudo e fica praticamente na miséria. Ciente do que se passava, a donzela conforta o seu amo e lhe sugere que lhe compre a vestimenta mais bonita que possa achar, incluindo jóias etc.
 Ele replica, dizendo que não tem dinheiro para isso. E ele de novo sugere que procure o mouro que a vendeu e tome dele o empréstimo necessário para enfeitá-la, e toda linda e toda enfeitada, com brilhantes brilhando no corpo, a leve diante do rei e sugira que ele tope por seus sábios para um duelo de conhecimentos e sabedoria. O rei fica atônito, mas aceita a proposta do desafio.
E um a um os sábios do rei vão caindo diante do saber inconfundível da donzela Teodora. Ela responde sobre tudo. Responde perguntas sobre o sol e a lua, sobre a natureza, sobre astronomia, matemática, filosofia e da gênese dos animais e da criação do mundo. O rei fica abestalhado, de queixo caído,  ao fim, enfeitiçado, pergunta o que ela e seu amo querem e quanto querem.
É uma história maravilhosa essa, a da donzela Teodora. História que deve ser lida por todo mundo, por gente de todas as idades, dos 8 aos 200 anos.
E caso queiram, dá prá extrair da história da donzela, contada em 142 estrofes de seis versos, ensinamentos que se adequam à realidade feminina. E o ensinamento maior fica latente: é preciso estudar, estudar, estudar...
A primeira versão dessa história foi feita pelo maranhense Artur Azevedo, jornalista, cronista, poeta.
Azevedo adaptou, em libreto, a história da donzela para o paraibano Abdon Milanez musicar. E assim a donzela virou a primeira opereta de Milanez. E para quem não sabe, Abdon Milanez é o autor do hino do Estado da Paraíba. Ele nasceu no dia 10 de agosto de 1858 e partiu para a eternidade no dia 1º de abril de 1927.
Em folheto de cordel, a primeira adaptação dessa história foi feita pelo paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918). O folheto A Donzela Teodora foi publicado no ano de 1905.
E viva a Donzela!

HISTÓRIA DA DONZELA TEODORA

Eis a real descrição
Da história da donzela
Dos sábios que ela venceu
E a aposta ganha por ela
Tirado tudo direito
Da história grande dela
Houve no reino de Túnis
Um grande negociante
Era natural da Hungria
E negociava ambulante
Uma alma pura e constante
Andando um dia na praça
Numa porta pôde ver
Uma donzela cristã
Para ali se vender
O mercador vendo aquilo
Não pôde mais se conter
Tinha feição de fidalga
Era uma espanhola bela
Ele perguntou ao mouro
Quanto queria por ela
Entraram então em negócio
Negociaram a donzela
O húngaro conheceu nela
Formato de fidalguia
Mandou educá-la bem
Na melhor casa que havia
Em pouco tempo ela soube
O que ninguém mais sabia
Mandou ensinar primeiro
Música e filosofia
Ela sem mestre aprendeu
Metafísica e astrologia
Descrever com distinção
História e anatomia
Ela que já era um ente
Nascida por excelência
Como quem tivesse vindo
Das entranhas da ciência
Tinha por pai o saber
E por mãe a inteligência
Em pouco tempo ela tinha
Tão grande adiantamento
Que só Salomão teria
Um igual conhecimento
Cantava música e tocava
A qualquer um instrumento
Estudou e conhecia
As sete artes liberais
Conhecia a natureza
De todos os vegetais
Descrevia muito bem
A castra dos animais
Descrevia os doze signos
De que é composto o ano
Da cabeça até os pés
Conhecia o corpo humano
E dava definição
De tudo do oceano
Admirou todo mundo
O saber desta donzela
Tudo que era ciência
Podia se encontrar nela
O professor que ensinou-a
Depois aprendeu com ela
Mas como tudo no mundo
É mutável e inconstante
Esse rico mercador
Negociava ambulante
E toda sua fortuna
Perdeu no mar num instante
Atrás do bem vem o mal
Atrás da honra a torpeza
Quando ele saiu de casa
Levava grande riqueza
Voltou trazendo somente
Uma extrema pobreza
Só via em torno de si
O vil manto da marzela
Em casa só lhe restava
A mulher e a donzela
Então chamou Teodora
E pediu o parecer dela
Disse ele: minha filha
Bem vês minha natureza
E sabes que o oceano
Espoliou minha riqueza
Espero que teus conselhos
Me tirem desta pobreza
Ela quando ouviu aquilo
Sentiu no peito uma dor
E lhe disse, tenha fé
Em Deus nosso salvador
Vou estudar um remédio
Que salvará o senhor
E disse: meu senhor saia
Procure um amigo seu
É bom ir logo na casa
Do mouro que me vendeu
Chegue lá converse com ele
E conte o que lhe sucedeu
O que ele oferecer-lhe
De muito bom grado aceite
E veja se ele lhe vende
Vestidos que me endireite
Compre a ele todas as jóias
Que uma donzela se enfeite
Se o mouro vender-lhe tudo
Com que possa me compor
Vossa mercê vai daqui
Vender-me ao rei Almançor
É esse o único meio
Que salvará o senhor
El-rei lhe perguntará
Por quanto vai me vender
Por dez mil dobras de ouro
Meu senhor há de dizer
Quando ele admirar-se
Veja o que vai responder
Dizendo alto senhor
Não fique admirado
Eu vendo-a com precisão
Não peço preço alterado
Dobrada esta quantia
Tenho com ela gastado
É esse o único meio
Para a sua salvação
Se o mouro vende-lhe tudo
Descanse seu coração
Daqui para o fim da vida
Não terá mais precisão
O mercador seguiu tudo
Quando a donzela ditava
Chegou ao mouro e contou-lhe
O desespero em que estava
Então o mouro vendeu-lhe
Tudo quanto precisava
Roupa, objetos e jóias
Para enfeitar a donzela
As roupas vinha que só
Sendo cortada pra ela
Ela quando vestiu tudo
Parecia ficar mais bela
O mercador aprontou-se
E seguiu com brevidade
Falou ao guarda da corte
Com muita amabilidade
Para deixá-lo falar
Com a real majestade
Então subiu um vassalo
Deu parte ao rei Almoçor
O rei chegou a escada
Perguntou ao mercador:
— Amigo qual o negócio
Que tem comigo o senhor?
Então disse o mercador
Sem grande humildade:
— Senhor venho a vossa alteza
Com grande necessidade
Ver se vendo esta donzela
A vossa real majestade
O rei olhou a donzela
E disse dentro de si:
Foi a mulher mais formosa
Que neste mundo já vi
Trinta ou quarenta minutos
O rei presenciou ela ali
Perguntou ao mercador:
Por quanto vendes a donzela?
Por 10 mil dobras de outro
É o que peço por ela
E não estou pedindo caro
Visto a habilidade dela.
Disse o rei ao mercador:
— Senhor, estou surpreendido
Dez mil dobras de ouro
É preço desconhecido
Ou tu não queres vendê-la
Ou estás fora do sentido
Disse o mercador: El rei
Não é caro esta donzela
Dobrado a esta quantia
Gastei para educar ela
Excede a todos os sábios
A sabedoria dela
O rei mandou logo chamar
Um grande sábio que havia
O instrutor da cidade
Em física e astronomia
Em matemática e retórica
História e filosofia
Esse veio e perguntou-lhe
— Donzela estás preparada
Para responder-me tudo
Sem titubiar em nada?
Se não estiver seja franca
Se não sai envergonhada
Então ela respondeu-lhe
— Mestre pode perguntar
Eu lhe responderei tudo
Sem cousa alguma faltar
Farei debaixo da lei
Tudo que o senhor mandar
O sábio ali preparou-se
Para entrar em discussão
Ela com muita vergonha
Ela não teve alteração
Pediu licença a El-rei
E ficou de prontidão
— Diz-me donzela o que Deus
Sob o céu primeiro fez
Respondeu o sol e a lua
E a lua por sua vez
É por uma obrigação
Cheia e nova todo mês
— Além do sol e a lua
Doze signos foram feitos
Formando a constelação 
Sendo ao sol todos sujeitos
Desiguais na natureza
Com diversos preconceitos
Como se chama esses signos?
Perguntou o emissário
A donzela respondeu:
— Capricórnio e Aquário
Tauro, Câncer, Libra, Virgo
Pisces, Escórpio e Sagitário
— Existem outros três signos
Áries, Léo e Geminis
No signo Léo quem nascer
Será um homem feliz
Inclinado a viajar
Por fora de seu país
O sábio disse: Donzela
É necessário dizer
Que condições tem o homem
Que em cada signo nascer
Por influência o signo
De que forma pode ser?
Disse ela o signo Aquário
Reina o mês de janeiro
O homem que nascer nele
Tem o crescimento varqueiro
Será amante das mulheres
Ventaroso e lisonjeiro
Pisces reina em fevereiro
Quem nesse signo nascer
É muito gentil de corpo
Muito guloso em comer
Risonho, gosta de viagem
Não faz o que prometer
Em março governa Áries
Neste signo nascerão
Homens nem ricos nem pobres
Por nada se zangarão
Neles se notam um defeito
Falando sós andarão
Em abril governa Tauro
Um signo bem conhecido
O homem que nascer nele
Será muito presumido
Altivo de coração
Será rico e atrevido
Geminis governa em maio
Sua qualidade é quente
O homem que nascer nele
Será fraco e diligente
Para os palácios e cortes
Se inclina constantemente
Em julho governa Câncer
Sua qualidade é fria
O homem que nascer nele
É forte e tem energia
É gentil e tem muita força
E sempre tem alegria
Em julho governa Léo
Por um leão figurado
O homem que nascer nele
É lutador e honrado
Altivo de coração
Inteligente e letrado
Em agosto reina Virgo
Vem da terra a natureza
O homem que nascer nele
Tem princípio tem riqueza
Depois se descuidará
Por isso cai em pobreza
Em setembro reina Libra
A Vênus assinalado
O homem que nascer nele
Será um pouco inclinado
A viajar pelo mar
É lutador e honrado
O que nascer em outubro
Será homem falador
Inclinado aos maus costumes
Teimoso e namorador
Pouco jeito nos negócios
Falso grave e enganador
Então o mês de novembro
Sagitário é o reinante
O homem que nascer nele
Será cínico e inconstante
Desobediente aos pais
Intratável assim por diante
Em dezembro é Capricórnio
Tem a natureza de terra
O homem que nascer nele
Será inclinado a guerra
Gosta de falar sozinho
E por qualquer coisa espera
O sábio ali levantou-se
Disse ao rei esta donzela
Não há sábio aqui no mundo
Que tenha a ciência dela
E com isso vossa alteza
Que estou vencido por ela
O rei ali ordenou
Que fosse o sábio segundo
Foi um matemático e clínico
Um gênio grande e fecundo
E conhecido por um
Dos sábios maior do mundo
Chegou o segundo sábio
Que inda estava orelhudo
E disse: Donzela eu tenho
Dezoito anos de estudo
Não sou o que tu venceste
Conheço um pouco de tudo
A donzela respondeu
Com licença de el-rei
Tudo que me perguntares
Aqui te responderei
Com brevidade e acerto
Tudo vos explicarei
Perguntou o sábio a ela:
Em nosso corpo domina
Qualquer um dos doze signos
Que a donzela descrimina
Terá alguma influência
Os signos com a medicina?
Então a donzela disse:
Descrito mestre direi
Sabe que os signos são doze
Como eu já expliquei
Compactam com a química
Quer saber? Explicarei
Áries domina a cabeça
Uma parte melindrosa
Para quem nascer em março
A sangria é perigosa
A pessoa que sangrar-se
Deve ficar receosa
Libra domina as espáduas
Câncer domina os peitos
Para os que são deste signo
Purgantes tem maus efeitos
E as sangrias também
Não serão de bons proveitos
Tauro domina o pescoço
Léo domina o coração
Capricórnio influi nos olhos
Escórpio a organização
Geminis domina os braços
e influi na musculação
Virgo domina o ventre
E Aquário nas canelas
Para os que são desses signos
Purgas e sangrias são belas
Então Sagitário e Pisces
Ambos têm igual tabelas
O sábio dentro de si
Disse meio admirado
Onde esta discutir
Ninguém pode ser letrado
Esta só vindo a propósito
De planeta adiantado
O sábio disse: Donzela
Eu quero se tu puderes
Isto é, eu creio que podes
Não dirás se não quiseres
O peso, idade e conduta
Que têm todas as mulheres
Disse a donzela: A mulher
É sempre a arca do bem
Porém só quem a criou
Sabe o peso que ela tem
Isso é uma coisa ignota
Disso não sabe ninguém
Que me dizes das donzelas
De vinte anos de idade?
Respondeu: Sendo formosa
Parece uma divindade
Principalmente ao homem
Que lhe tiver amizade
As de trinta e quarenta
Que dizes tu que elas são?
Disse ela: Uma dessas
É de muita consideração
— Das de 50 o que dizer?
— Só prestam para oração
— Que dizes das de 70?
— Deviam estar num castelo
Rezando por quem morreu
Lamentando o tempo belo
O que dizes das de 80?
— Só prestam para o cutelo
Então classificas as velhas
Tudo de mal a pior?
E nos defeitos de tantas
Não se encontra um menor
Disse ela: Deus me livre
De ser vizinho da melhor
Donzela o sábio lhe disse
Sei que és caprichosa
Entre todas as pessoas
És a mais estudiosa
Diga que sinais precisam
Para a mulher ser formosa
Então a donzela disse:
Para a mulher ser formosa
Terá dezoito sinais
Não tendo é defeituosa
A obra por seu defeito
Deixa de ser melindrosa
Há de ter três partes negras
De cores bem reluzentes
Sobrancelhas, olhos, cabelos
De cores negras e ardentes
Branco o lacrimal dos olhos
Ter branca a face e os dentes
Será comprida em três partes
A que tiver formosura
Compridos os dedos das mãos
O pescoço e a cintura
Rosada cútis e gengivas
Lábios cor de rosa pura
Terá três partes pequenas
O nariz, boca e pé
Larga a cadeira e ombro
Ninguém dirá que não é
Cujos sinais teve-se todos
Uma virgem em Nazaré
O sábio quando ouviu isto
Ficou tão surpreendido
E disse: El-rei Almançor
Confesso que estou vencido
E quem argumenta com ela
Se considera vencido
El-rei mandou que outro sábio
Entrasse em discussão
Então escolheram um
Dos de maior instrução
A quem chamavam na Grécia
Professor da criação
Abraão de Trabador
Veio argumentar com ela
E disse logo ao entrar:
Previne-te bem, donzela
Dizendo dentro si
Eu hoje hei de zombar dela
Então a donzela disse:
Senhor mestre estarei disposta
De todas suas perguntas
O senhor terá resposta
Se tem confiança em si
Vamos fazer uma aposta?
Minha aposta é a seguinte
De nós o que for vencido
Ficará aqui na corte
Publicamente despido
Ficando completamente
Como quando foi nascido
O sábio disse que sim
Mandaram o termo lavrar
E a donzela pediu
Ao rei para assinar
Para a parte que perdesse
Depois não se recusar
Lavraram o termo e foi
Às mãos do rei Almoçor
Pra fazer válido o trato
E ficar por fiador
Obrigando quem perdesse
Dar as roupas ao vencedor
O sábio aí perguntou:
Qual é a coisa mais aguda?
Disse ela: é a língua
Duma mulher linguaruda
Que corta todos os nomes
E o corte nunca muda
Donzela qual é a coisa
Mais doce do que mel?
— O amor do pai a um filho
Ou dama esposa fiel
A ingratidão de um desses
Amarga mais do que fel
O sábio disse: Donzela
Conheces os animais?
Quero agora que descrevas
Alguns irracionais
Me diga qual é o bicho
Que possui oito sinais
Mestre, isto é gafanhoto
Vive embaixo dos outeiros
Tem pescoço como vaca
Esporas de cavaleiros
Tem olhos como marel
Um pássaro dos estrangeiros
Focinho como de vaca
Tem pés como de cegonha
Tem cauda como de víbora
Uma serpente medonha
E é infeliz o vivente
Que a boca dela se oponha
Tem peito como cavalos
E não ofende a ninguém
Tem asas como de águia
A que voa muito além
São antes oito sinais
Que o gafanhoto tem
Perguntou o sábio a ela:
— Que homem foi que viveu
Porém nunca foi menino
Existiu mas não nasceu
A mãe dele ficou virgem
Até que o neto morreu
— Este homem foi Adão
Que da terra se gerou
Foi feito já homem grande
Não nasceu, Deus o formou
A terra foi a mãe dele
E nela se sepultou
Foi feita mas não nascida
Essa nobre criatura
A terra foi a mãe dele
Serviu-lhe de sepultura
Para Abel o neto dele
Fez-se a primeira abertura
— Donzela qual é a coisa
Que pode ser mais ligeira?
Respondeu: O pensamento
Que voa de tal maneira
Que vai ao cabo do mundo
Num segundo que se queira
O sábio fitou-a e disse:
— Donzela diga-me agora
Qual o prazer de um dia
Qual prazer duma hora?
— Dum negócio que se ganha
Dum passeio que se queira
A donzela respondeu
Com a maior rapidez
Disse: um homem viajando
E se bom negócio fez
É um dos grande prazeres
Que verá por sua vez
Donzela o que é vida?
Disse ela: Um mar de torpeza
O que pode assemelhar-se
À vela que está acesa
Às vezes está tão formosa
E se apaga de surpresa
Donzela por quantas formas
Mente a pessoa afinal?
Respondeu: Mente por três
Tendo como essencial
Exaltar a quem quer bem
E pôr taxa em quem quer mal
Donzela que é velhice?
Respondeu com brevidade:
É vestidura de dores
É a mãe da mocidade
E o que mais aborrecemos?
Respondeu: É a idade
Donzela qual é a coisa
Que quem tem muito ainda quer?
Disse ela: É o dinheiro
Que o homem e a mulher
Não se farta de ganhar
Tenha a soma que tiver
Qual é a coisa que o homem
Possui e não pode ver?
Disse ela: O coração
Que aberto tem que nascer
Ver a raiz dos seus olhos
Não há quem possa obter
Donzela qual foi o homem
Que por dois ventres passou?
Disse a donzela: Foi Jonas
Que uma baleia o tragou
Conservou-o dentro três dias
E depois o vomitou
O sábio disse: Donzela
Qual o homem mais de bem?
Disse ela: É aquele
Que menos defeitos tem
Quem terá menos defeitos?
— Isso não sabe ninguém
— Donzela qual é a coisa
Que não se pode saber?
O pensamento do homem
Se ele não quer dizer
Por mais que a mulher procure
Não poderá obter
— Donzela o que é a noite
Cheia de tantos horrores?
Disse ela: É descanso
Dos homens trabalhadores
É capa dos assassinos
Que encobre os malfeitores
— Onde a primeira cidade
Do mundo foi construída?
— A cidade de Ninive
A primeira conhecida
Que depois de certo tempo
Foi pela Grécia abatida
Perguntou: Qual o guerreiro
Que teve a antigüidade?
Respondeu: Foi Alexandre
Assombro da humanidade
Guerreou vinte e dois anos
E morreu na flor da idade
Donzela falaste bem
Do maior conquistador
Diga dos homens qual foi
O maior sentenciador?
— Pilatos que deu sentença
a Cristo Nosso Senhor
De todos os patriarcas
qual seria o mais valente?
— O patriarca Jacó
Que lutou heroicamente
Com os anjos mensageiros
Do monarca onipotente
— Qual foi a primeira nau
Que foi para o estaleiro
— Foi a Arca de Noé
A que no mar foi primeiro
Onde escapou um casal 
De tudo no mundo inteiro
— O que corta mais
Que a navalha afiada?
É a língua da pessoa
Depois de estar irada
Corta com mais rapidez
Que qualquer lâmina amolada
— Qual é o maior prazer
Com que se ocupa a história?
Respondeu: Quando um guerreiro
No campo ganha vitória
Sabei que não pode haver
Tanto prazer tanta glória
O sábio disse: Donzela
Tens falado muito bem
Me diga que condições
O homem no mundo tem?
Disse a donzela: tem todas
Para o mal e para o bem
É manso como a ovelha
E feroz como o leão
Seboso como o suíno
É limpo como o pavão
É falso como a serpente
É tão leal como o cão
É fraco como o coelho
Arrogante como o gelo
Airoso como o furão
Forçoso como o cavalo
E mais te digo que o homem
Ninguém pode decifrá-lo
É calado como peixe
Fala como papagaio
É lerdo como preguiça
É veloz igual ao raio
É sábio quando ouviu isto
Quase que dar-lhe um desmaio
Então inventou um meio
Para ver se a pegaria
Perguntou: O sol da noite
Terá luz quente ou fria?
A donzela respondeu
Que à noite sol não havia
Com a presença do sol
É que se conhece o dia
Se de noite houvesse sol
A noite não existia
E sem o sereno dela
Todo vivente morreria
Sem água, sem ar, sem luz
A terra não tinha nada
Não tinha os seres que tem
Seria desabitada
A própria vegetação
Não podia ser criada
Os reinos da natureza
Cada um possui um gênio
É necessário o azoto
Precisa o oxigênio
Para a infusão disso tudo
O carbono e o hidrogênio
O dia Deus fez bem claro
A noite fez bem escura
Se de noite houvesse sol
Estava o homem à altura
De notar esse defeito
E censurar a natura
O sábio baixou a vista
E ouviu tudo calado
Nada teve a dizer
Pois já estava esgotado
E tinha plena certeza
Que ficava injuriado
Disse ao público: Senhores
A donzela me venceu
Não sei com qual professor
Esta mulher aprendeu
Aí a donzela disse:
Então o mestre perdeu?
Ele vendo que estava
Esgotado e sem recursos
Ficou trêmulo e muito pálido
Fugiu-lho até os pulsos
Prostou-se aos pés de El-rei
Se sufocando em soluços
E disse: Senhor, confesso
A vossa real majestade
Que vejo nesta donzela
A maior capacidade
Ela merece ter prêmio
Pois tem grande habilidade
A donzela levantou-se
Foi ao soberano rei
Então beijando-lhe a mão
Disse: Vos suplicarei
Mande o sábio entregar-me
Tudo que dele ganhei
O rei ali ordenou
Que o sábio se despojasse
De todas as vestes que tinha
E à donzela as entregasse
O jeito que tinha ali
Era ele envergonhar-se
O sábio pôs-se a despir-se
Como quem estava doente
Fraque, colete e camisa
Ficando ali indecente
E pediu para ficar 
Com a ceroula somente
Depois sufocado em pranto
Prostrado disse à donzela:
Resta-me apenas a ceroula
Não posso me despir dela
A donzela perguntou-lhe:
O senhor nasceu com ela?
O trato foi o seguinte
De nós quem fosse vencido
Perante a todos da corte
Havia de ficar despido
Como quando veio ao mundo
Na hora que foi nascido
El-rei foi o fiador
Nosso ajuste foi exato
O senhor tem que despir-se
E dar-lhe fato por fato
Ficando com a ceroula
Não teve efeito o contrato
E não quis dar a ceroula
O rei mandou que ele desse
Ou pagaria à donzela
O tanto que ela quisesse
Tanto que indenizasse-a
Embora que não pudesse
Donzela quanto queres
Perguntou o sábio enfim
A donzela ali fitou-o
E lhe respondeu assim:
A metade do dinheiro
Que meu senhor quer por mim
O rei ali conhecendo
O direito da donzela
Vendo que toda razão
Só podia caber nela
Disse ao sábio: Mande ver
O dinheiro e pague a ela
Cinco mil dobras de ouro
A donzela recebeu
O sábio também ali
Nem mais satisfação deu
Aquele foi um exemplo
Que a donzela lhe vendeu
O rei então disse à ela:
Donzela podes pedir
Dou-te a palavra de honra
Farei-te o que exigir
De tudo que pertencer-me
Poderás tu te servir
Ela beijou-lhe a mão
Lhe disse peço que dê-me
A quantia do dinheiro
Que meu senhor quer vender-me
Deixando eu voltar com ela
Para assim satisfazer-me
O rei julgou que a donzela
Pedisse para ficar
Tanto que se arrependeu
De tudo lhe franquear
Mas a palavra de rei
Não pode se revogar
Mandou dar-lhe o dinheiro
Discutiu também com ela
Mas ciente de tudo
Quanto podia haver nela
E disse vinte mil dobras
Não pagam esta donzela
Voltou ela e o senhor
À sua antiga morada
Por uma guarda de honra
Voltou ela acompanhada
O senhor dela trazendo
Uma fortuna avaliada
Ficaram todos os sábios 
Daquilo impressionados
Pois uma donzela escrava
Vencer três homens letrados
Professores de ciências
Doutores habilitados
Abraão de Trabador
Com todos não discutia
Já tinha vencido muitos
Em música e filosofia
Em história natural
Matemática e astronomia
Ele descrevia a fundo
Os reinos da natureza
Era engenheiro perito
De tudo tinha a certeza
Descrevia o oceano
Da flor d'água a profundeza.
Tanto quando ele entrou
Que fitou bem a donzela
Calculou dentro de si
A força que havia nela
Confiando em sua força
Por isso apostou com ela
Caro leitor escrevi
Tudo que no livro sabei
Só fiz rimar a história
Nada aqui acrescentei
Na história grande dela
Muitas coisas consultei


segunda-feira, 24 de abril de 2017

EXISTE AMOR REAL?

Meu amigo, minha amiga:

Você acredita no amor? 
Em 1871 estreou na Casa da ópera do Cairo, no Egito, a grandiosa e bela Aída, do italiano Giuseppe Verdi.
Verdi foi um gênio sob todos os aspectos, e um ser humano exemplar. Tanto que construiu em vida uma enorme moradia para acolher os músicos de futuro findo, aqueles que chegam aos últimos dias da vida sem ter sequer onde morar.
Aída é uma princesa etíope, pega e escravizada pelos egípcios.
A história é baseada na mitologia grega.
O guerreiro comandante em chefe dos egípcios, Radamés, apaixona-se loucamente por Aída. E ela por ele, também. 
No meio da história, aliás muito antes do meio da história, surge outra princesa: Amneris.
Amneris era louca por Radamés, que não dava bola para ela. Portanto Aída amava Radamés que não amava Amneris...
E o pau canta depois da volta vitoriosa de Radamés contra as forças etíopes. E há traição e tudo mais nessa história.
Depois de descobrir a paixão irremediável de Radamés por Aída, Amneris faz o que pode e o que não pode para ferrar Aída e Radamés é levado a julgamento e condenado por traição a morrer emparedado, em outras palavras, enterrado vivo. E com ele, sem que ele saiba, aparece de repente burlando a segurança egípcia, sua princesa etíope: Aída. E ambos morrem abraçados para viver na eternidade...
Aída, a ópera, é uma história que nos enche os olhos de lágrimas.
É isso.




O FIM DAS TRADIÇÕES JUNINAS


Desde sempre, o Brasil é um país incrível.
Um amigo meu, Hernâne Donato, escreveu um belíssimo livro a que deu o titulo de Dicionário das Batalhas Brasileiras.Esse livro foi publicada pela Ibrasa. Nesse livro Hernâne prova que houve no Brasil,pelo menos, uma batalha, um conflito, com feridos e mortos todos os dias desde a chegada dos estrangeiros entre nós. É muita coisa, não é, pois bem, num ano dos 30 do século passado, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, paulistano, escreveu um livro básico para a compreensão do comportamento do ser brasileiro.Esse livro, Raízes do Brasil, dá o que falar até hoje. 
O motivo?
Sérgio Buarque afirma , talvez erroneamente, que o brasileiro é um ser pacato.
A história, a história mesmo, mostra o contrário: somos bonzinhos, mas nem tanto.
No campo da cultura popular brasileira temos vários desbravadores, como Luis da Câmara Cascudo (1898 - 1986).Click: 


http://www.portaldosjornalistas.com.br/noticias-conteudo.aspx?id=889


Câmara Cascudo deixou publicados cerca de 150 títulos. Num deles, Vaqueiros e Cantadores, ele já falava do poeta popular cearense Patativa do Assaré, de batismo Antonio Gonçalves da Silva (1909 - 2002). Aliás, cheguei a escrever e a publicar um livro a seu respeito: O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré.


Cascudo é o autor do indispensável dicionário do folclore brasileiro, lançado originalmente em dois volumes pela gráfica do senado em 1954.
Pois bem, desde de sempre o Brasil é um país incrível.
Não são poucas as manifestações culturais que vicejam no solo brasileiro e no coração do povo, em ultima analise nós.


Luiz Gonzaga mapeou a cultura musical do nordeste, e Patativa , com a sua poesia, deu voz aos deserdados.É dele, com gravação de Luiz Gonzaga a tocante toada "A Triste Partida", de 1964.Click:





Enquanto isso o tempo passa engrandecendo ou diminuindo a cultura de um país, não é mesmo? Ou de uma região.
Agora mesmo, e não é de hoje, a gula por dinheiro está desmilinguindo o que há de mais bonito do repertório tradicional nordestino.
O chamado O Maior São João do Mundo está ficando deste tamanhinho e o motivo é simples: os forrozeiros, os baioneiros, os cantores e cantores de repertório junino, como Elba Ramalho, Genival Lacerda, Alceu Valença, Biliu de Campina, Pinto do Acordeon, Zé Calixto, Alcymar Monteiro, Santana e Antônio Barros & Cecéu  e tantos e tantos outros grandes da nossa boa música estão fora da programação deste 2017. Sem falar dos cantadores repentistas, sempre sumidos dessas programações.
A programação para O Maior São João do Mundo deste ano está recheada de sertanojos e de outras pérolas sem brilho algum, pelo menos no que se refere ao bom gosto.Vocês gostam de um tal Luan não sei o que,e Safadão não sei das quantas? Pois é...confiram os nomes da programação do Maior São João do Mundo para 2017.





As tradições estão mesmo indo para o beleléu, ou para mais longe, sei lá!
 No tocante, no que diz respeito aos festejos juninos. Já não há paus de sebo, fogos de artifícios, fogueiras, canjica, pamonha, e alegria espontânea em locais ou ambientes em que se possa comer e brincar dando vivas ao dorminhoco São João. Ai, ai, ai.

TROFÉU GONZAGÃO




Ao contrario da programação do São João de Campina Grande, louvável a iniciativa dos organizadores do troféu Gonzaga. Este ano o troféu homenageia Geraldinho Azevedo e o Quinteto Vi0olado; in memoriam Abdias dos Oito Baixos, que era primo do meu amigo Vital Farias. O troféu está na sua 9 edição. Numa das primeiras eu o Fagner fomos homenageados com esse troféu.






VIGÍLIA PELA LEITURA


A decisão de suspender o funcionamento de 24h da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista, não foi uma decisão boa. Não foi uma decisão legal, no sentido de deixar os munícipes felizes. Toda a hora é hora de ler, de ir ao teatro e cinema, de assimilar conhecimentos. Parece que o nosso prefeito, Dória, e seu secretário não sei como se chama, não sabem disso. Deveriam saber pois, enfim, são administradores públicos, não são mesmo? A decisão de encerrar as atividades de 24h da biblioteca  vai levar um monte de gente hoje para um protesto de alto nível; de nível literário e cidadão. Se são poucos os frequentadores notívagos, porquê não desencadear uma grande campanha a favor da leitura? Todos precisamos disso! A Biblioteca Mário de Andrade na Rua Consolação, 94, pertinho da estação Anhangabaú do Metrô, você vai?
Mário de Andrade foi o primeiro secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Que nível hein? 

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